100 Dias – Dia #2 – Moda & Conscientização

Fonte: Marie Claire
Por Letícia González
Há mais de dez anos, mais precisamente em 1996, a ex-modelo somali Waris Dirie tornou-se símbolo de uma cruel tradição até então pouco divulgada: a mutilação genital de meninas e mulheres na África. Após revelar sua história ao mundo, e transformar uma cicatriz em causa, ela lança a autobiografia, “Flor do Deserto”, no cinema (o filme estréia, no Brasil, dia 28 de maio).
Waris esteve no Brasil para ser madrinha do camarote da Brahma no Carnaval de São Paulo. Em entrevista concedida a Marie Claire, na ocasiāo, falou sobre o que a trouxe ao Brasil.
“Vim também para mostrar algo que os brasileiros não sabem. [...] Quando falei sobre a prática da mutilação em uma entrevista coletiva, as pessoas ficaram horrorizadas.”
Ela doará os 10 mil euros de cachê pagos pela Brahma para a fundação que mantém, a Waris Dirie Foundation, que trabalha para erradicar a prática.
Mesmo com sua luta, que já conquistou alguns avanços, Waris disse que a circuncisão feminina continua sendo praticada na África, em alguns países árabes e em comunidades de imigrantes na Europa e nos Estados Unidos.
Hoje, a OMS (Organização Mundial da Saúde) calcula que, a cada ano, três milhões de meninas passem pela prática, que, dentre os métodos utilizados, retira, além do clitóris, os lábios da vulva, que depois são costurados.
“As coisas estão melhorando, mas não é o suficiente. O que me deixa doente é que os políticos do mundo não levam a questão a sério porque, no fim das contas, é um ‘problema de mulher’, algo relacionado à vagina. Muitos argumentam dizendo que ‘isso é religião’ ou ‘é a cultura dos outros’, quando na verdade é um crime. Especialmente quando ocorre com garotas pequenas que não podem se defender”, argumentou Dirie.
Mais do que apenas o controle, Waris defende a educação sobre o assunto nas comunidades e nos países com colônias africanas. Segundo a ex-modelo, médicos e professores precisam saber que quando uma menina vai de férias para o país de origem ela pode estar viajando e estar prestes para ser mutilada. Isso porque, nas comunidades que praticam a circuncisão feminina, não ser mutilada é visto como uma maldição. Mãe de dois meninos, a ex-modelo afirma que os homens são os primeiros a exigir a barbárie.
“Nenhum homem se casará com uma menina que não tenha sido circuncidada. Há muitas histórias para explicar o porquê disso, mas a verdade é que, sem ser mutilada, a mulher não será aceita. Acham que se você não for circuncidada vai dormir com qualquer um.”
Para detalhes da história de Waris Dirie, revelada a jornalista Lara Ziv em 1996, e o trailer de Flor do Deserto: Marie Claire